Terça-feira, Setembro 21, 2004

Chora baixinho

Dia assombroso em mim...
Encontro-me contigo de asas abertas
para arcanos libertar... Baralho com a tua gargalhada
salgada e em vão tento fugir...
Como posso sequer tentar se sairei deprecante?...
O meu amor encontrará um caminho sem mapa.
Ele chega lá. É paciente. Chora baixinho... sem pressa ...
Talvez o preferira a voar ao vento. Ou como gaivota que paira
no ar e ali fica numa eterna miragem. Ali suspenso ele mira, rodopia em sonhos já perdidos por recuperar. È deles que vive.Sem pressa chora baixinho

Frio

A inconstância do tempo branqueia-me a pele...
O rosto hirto procura refúgio num invólucro de lã negra.
O corpo... esse... há muito que anseia o interior languido e morno que só o amor alcança. E o poder celestial pareceu-me tão subtil...
E o frio permanece... o frio destrói... o frio faz-me desejar-te qual numa tarde
húmida de estio.
Hoje atei os lençóis sob o colchão, mas o calor que flui de corpo para corpo...
Sonho contigo... Vejo-me a teu lado numa viagem por acontecer.
Os teus lábios assombram-me, perseguem-me... E como necessito deles submissos aos meus.
Queria não entende-te.

Quero-te


Domingo, Setembro 19, 2004

...

Curvas, curvas e voltas sem nunca voltar.
Estradas sem sentido, como a voz do povo.
A voz alta sem sonho com comandos fictícios.
A voz que grita no mais profundo Eu.
Sentidos apurados no sofrimento,
a vontade de Deus, esse Deus, o qual todos nós o procuramos.
A fé da movimentação que nos leva até ao final do buraco...
Pedras soltas que tropeço no asfalto deste caminho, robusto visto por qualquer príncipe das Arábias.
Fundamentos? Pergunto, grito e quebro a voz, no cansaço deste caminho.
Desfaleço como se fosse o mundo no seu finito, nas frestas feridas que tento alcançar...
Encontrei-te num desses becos que percorri. O encontro estava escrito nas paredes, com sangue para não mistificar a nossa solidão com a nossa fusão.
Viver com os pés no Zigurat, nos rituais de Hammurabi, ficando nas leis dos tribunais.
Corro, corro, como nunca. Quero-te, és a armadura dos meus pés, as escadas da minha loucura.
Grito, como grito, o corte, corte, cabeça, e eu, e tu, num bando de sedentários, os mesmos me raptaram, prenderam-me os movimentos, amarraram-me, taparam-me a boca com o mais sedoso dos lenços de caxemira, adormeceram-me com o cheiro a maresia barata...
O conjunto, o círculo, o fundo na vontade de rodar, rodar e voltar a rodar e circular no mesmo ciclo. Com destreza, caminho no escorrega da montanha com as pernas ao contrário, como as rédeas da minha carroça delirante e sem fio, rebenta com a facilidade que sinto os teus lábios a percorrerem cada pedaço do meu corpo...

Como o escreveste: “ Pensar em ti dá-me força para viver. Não fosse eu morrer sem te conhecer. Morria no dia em que nascia!” parafraseio as tuas palavras...
Et-oma aluap...

Sábado, Setembro 18, 2004


... Posted by Hello

Solidão: ilusão, dor ou paz?

A vida é um espaço contínuo de descoberta, do que nos rodeia, de nós próprios, de tudo o que se constrói e destrói.
A solidão estando na maioria das vezes ligada a algo de negativo, jamais poderia ser considerada como algo de superficial, inerente à condição humana. No entanto será que em alguma altura das nossas vidas estamos realmente sós, ou será tudo isto mais um estado de depravação, uma mera ilusão?
Por que raio precisamos, ou melhor, qual a razão de necessitarmos de termos alguém do nosso lado, alguém que nos oiça, que nos abrace, que nos beije?
Para além da “necessidade” física inerente entre dois elementos do mesmo sexo ou não, ou numa palavra, necessidade de sexo (parcialmente colmatada com a masturbação), qual o motivo que pode despertar outros propósitos que eventualmente poderíamos conotar como psicológicos, ou seja, controláveis?
Seremos de facto o animal social que tantos profetizam?
A solidão poderá incorrer numa ilusão colectiva que surge do facto de não sabermos estar com nós próprios, necessitando das palavras de outrem para nos fazer sentir vivos, o que, como podem calcular é bastante ridículo. Como consequência desta postura estão vários estádios que podem levar à degeneração humana.
A dor proveniente da solidão, justifica-se no facto de não sabermos estar sós, de necessitarmos de algo ou de alguém que preencha um vazio criado pelo próprio. Desta forma, se soubermos preencher esse vazio poderíamos “utilizar” os outros não como parcelas que completam o “Eu” mas sim como meios de enriquecer o “Eu”.
Tudo gira em volta do “Eu” e como o mesmo se manifesta numa sociedade, numa comunidade, numa consciência.
O facto de necessitarmos de outrem para alimentar o “Eu” provoca uma relação de dependência ou interdependência onde situações de ausência iriam desencadear vários sentimentos de mal-estar.
A dependência de outrem pode consubstanciar-se naquilo que os nossos sentidos apreendem que é visualizar grupos de pessoas que se vão consumindo umas ás outras, uma sinfonia de gargalhadas provenientes de um único ponto.
Estas imagens, sons, podem levar ou criar a ilusão de que necessitamos de estar em grupo, de vivermos no plural onde o único lugar para o singular seria uma caixa isolada que nos fecha do mundo.

Sexta-feira, Setembro 10, 2004

quiosque de sobrevivência...

Sinto-me fraca, branca por dentro... sem cor... A sensibilidade das pequenas coisas já não faz sentido. A lágrima que caí na pureza da face já se observa sem efeito.
Hoje, senti, reparei que as pessoas tem todas a mesma expressão, como alguém completou "sobrevivem", e eu pertenço a esse grupo mas de uma forma mais grave, quero com isto dizer, que tenho consciência dessa expressão, o que faço? Refugio-me no meu interior, nos caracteres infinitos das páginas de livros que vou consumindo, no anonimato deste blog, na vida sem vida.
Quem sou? Há muito que não sei... O padrão imposto pela nossa sociedade raptou-me, vendi-me à individualidade. Caminho que me levou ao silencio, à criação castrada, ao voar sem asas...
Vivemos com a meta da globalização, todos iguais... O tipo ideal é uma generalização, mas é levado à letra, fazendo com que a génese seja aniquilada, o índividuo é um ser único, diferente e inconfundível que deverá conhecer o seu interior para que no final se funda com a diversidade interior de cada um, assumindo-se como um ser único dentro do conjunto global.
No entanto, a nossa diferença dramática, a de tanto querermos ser diferentes no padrão da sociedade inseridos, somos aniquilados de uma forma violenta, exagerada, chegando até a ser misteriosa, passando a regermo-nos pelo padrão a técnica, observando lentamente este quiosque de sobrevivência...




... há uns meses atrás transformei a minha revolta em palavras, passei-a para aquele bloco que me vai acompanhado durante o meu percurso de vida, hoje voltei a lê-lo e cheguei à conclusão que neste momento ainda me sinto pior perante este meu país... sinto-me perdida no próprio vazio... Hoje, penso que não vale a pena... já não vale a pena, o ricochete naquele muro erguido agora doí muito mais...

Quinta-feira, Setembro 09, 2004

Veja lá que aqueles malandros me levaram duas galinhas…

wally... este é meu e da Lua para ti...

Foi numa das manhãs encantadas das férias. Ainda dormitava, embora o dia já se tivesse erguido há horas. Teria havido treino de hóquei no dia anterior e entre os ruídos peculiares dos stiques e da bola em jogo, do ziguezaguear dos patins, dos apitos e de vozes desencontradas, talvez tivéssemos aproveitado para mergulhar na piscina ou, quiçá, brincarmos às escondidas. Ou então, algum entretenimento dentro de portas, como era hábito, me tivesse feito prolongar a noite. Não há regras em tempo de férias.
Como estava a dizer, entre o cá e o lá do sono, intermitentemente atenta aos ruídos da manhã, uma voz que se ia tornando mais nítida à medida que a consciência da realidade tomava conta de mim, clamava:
— Oh, D. Eva! D. Evaaaaa…
— Bom dia D. Fernandinha. Que se passa?
— Veja lá que aqueles malandros me levaram duas galinhas …
— Mas quem?
— Os malandros dos garotos…
— Garotos? Quais?
— Ora, os miúdos…
— Não diga isso. Podem não ter sido eles.
— Ah, isso é que foram. Fui espreitar ao Palácio de Cristal e lá estava um montinho de penas brancas das minhas galinhas. Ah, se os apanho…
— Unnhhhhh… Podem não ser as suas galinhas.
A tarde calorenta já se tinha firmado. A digestão de pouco alimento, que se queria rápida, devido à promessa de boas e divertidas horas na piscina, já estava quase feita. Talvez o tio Pinto emprestasse a raqueta de ténis ou, alternativamente, se calçasse os patins, entre os deliciosos banhos e gritos molhados de alegria.
— Oh, D. Eva! D. Evaaaaa… Eu não lhe disse?
— O que se passou?
— Foram os malandros. Veja lá que o Afonso ainda teve o descaramento de me vir pedir a frigideira grande para fritar galinha… Eu dei-lhe a frigideira… Não apanhou com ela porque fugiu.
— Aannn?- fez a Eva de dentes cerrados, engolindo o riso.
Da minha parte, gargalhei abertamente. O meu partido estava definitiva e decididamente tomado, sem condições: o dos pilha-galinhas, como adepta e combatente de primeira linha na luta inter-geracional filhos e pais. Combate que terminava quando estes assentavam sem pruridos um chinelo em cheio na nádega mais a jeito, remédio caseiro tão em voga na época e que surtia efeitos prodigiosos.
É uma história simples mas representa um facto do qual os protagonistas se recordarão. O relato assenta na forma como eu tomei conhecimento dele.

O discurso é ficcional mas procura traduzir a essência de um acontecimento tão normal e vulgar no nosso pequenino mundo de outrora e que constitui parte das memórias agradáveis de hoje.

um obrigada à Clarinha...

Terça-feira, Setembro 07, 2004

fantasma...

Vivo como um fantasma
Perdida dentro de mim
Vivendo em sítios secretos
Sobre as minhas memórias
Não consigo sonhar
Apesar de dormir
Quebram-se as promessas
Duplas personalidades
Estou a perder-me de mim...de mim...
Desejo algo da luz da Lua
O teu abraço perto
Céus a preto e branco
Vem o seguinte
A pele não se pode tocar...
Sinto-me sozinha...
Sensual, perco-me na sensualidade,
O tempo partiu-se
para baixo
Fecha-se o Inverno, Primavera...
Passos devagar...
Vejo as tuas mãos na minha morte
Do mundo da cidade
O quanto muda...
No meu instinto...
Sem fundo...
Residências rebentam
Perco a mente
Glória do prazer...
Castelo, Prova....

Domingo, Setembro 05, 2004


...
Wally

Quinta-feira, Setembro 02, 2004

distâncias versus "irresponsabilidades"

Sincronicidade significa o princípio não-casual de conexão; coincidência significativa em que um evento interior e outro exterior ocorrem ao mesmo tempo. Sincronicidade, palavra robusta que raramente se usa para relações humanas, pelo menos eu, não uso... Todavia, estatelei-me e debati-me com ela...Passando a verdade a transformar-se, ou seja a totalidade das minhas sensações, deixam de ser realidade e nuamente a verdade fica dispersa...e a minha realidade deixa de ser a minha sensação, passando a ser uma verdade partilhada, e não o interior de mim...Holismos e paradigmas de Consciências...
As rotinas que fundamento com algo imanente em mim e que começo agora a aperceber-me com uma consciência menos turva. Sogyal Rinpoche em " O Livro Tibetano da Vida e da Morte" refere, ou melhor faz-nos pensar, desperta-nos: Dizemos a nós mesmos que queremos dedicar algum tempo às coisas importantes da vida... - mas nunca há oportunidade para isso. Temos muito que fazer, mesmo quando nos levantamos, logo de manhã: abrir a janela, fazer a cama, tomar banho, lavar os dentes, dar de comer ao cão e ao gato, lavar a louça da noite anterior, descobrir que se acabou o café e o açúcar, sair para os comprar, preparar o pequeno almoço... A lista é infindável (...). Impotentes vemos os nossos dias preenchidos com conversas telefónicas e projectos fúteis, vemos tantas "responsabilidades" ..., ou não seria melhor chamar- lhes "irresponsabilidades".
Quero fundamentar com este pensamento, que ficamos anos e anos e por vezes extreminamos relações, contactos transpessoais, simples cumprimentos, ideias porque estamos ocupados... nas nossas "irresponsabilidades"...